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Quarta-feira, Agosto 10, 2022

Nós nos importamos mais com a conservação de espécies que são estéticas?

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Vale a pena ser bonito – especialmente se você é uma espécie em extinção.

A maioria das organizações de conservação tem um mascote, muitas vezes um grande mamífero majestoso, um pássaro colorido ou uma criatura marinha inspiradora. Isso não é um erro. Humanos são mais propenso a se importar com algo que é bonito. Por sua vez, interagir com belos lugares selvagens nos traz prazer e cura.

Em um estudo recente publicado em PLOS Biologia, um grupo de pesquisadores franceses visou uma investigação na intersecção entre biodiversidade, beleza e conservação. Os cientistas encontraram que, entre os peixes de recife, as espécies que as pessoas consideram mais bonitas ocupam uma fatia muito pequena do bolo ecológico. Esses peixes estéticos vêm de uma linhagem evolutiva comum e desempenham papéis semelhantes dentro do ecossistema. Por outro lado, as espécies “feias” são ecologicamente e evolutivamente diversas e, em média, mais ameaçadas de extinção do que suas belas contrapartes.

Quantificando a beleza

Para avaliar o valor estético inerente de cada espécie, os pesquisadores pediram aos entrevistados on-line que escolhessem a imagem mais bonita de um par de fotos de peixes. No total, 13.000 pessoas avaliaram 481 fotografias. Os cientistas então treinaram uma rede neural convolucional, essencialmente uma Inteligência Artificial (IA) que analisa imagens, para imitar essas preferências humanas. “A inteligência artificial nos permite fazer previsões muito melhores do que as abordagens correlativas tradicionais”, diz o autor Nicolas Mouquet.

Mouquet e seus colegas deixaram a próxima tarefa para a IA. Fazendo sua melhor impressão de um humano olhando fotos de peixes, o modelo de aprendizado de máquina avaliou 4.400 fotos das 2.417 espécies de recifes mais comuns do mundo. Os cientistas ficaram com um conjunto de dados muito além do escopo de qualquer estudo anterior sobre o assunto.

Vencedores e Perdedores

Assim que Mouquet e seus colegas começaram a analisar os dados, surgiram padrões. Os peixes mais bonitos, como os peixes-anjo, tendiam a exibir várias cores saturadas que se repetiam em padrões em suas escamas. A modelo também preferiu peixes com corpos redondos, característica que é consistente com as preferências humanas para designs de logotipo.

É claro que a evolução não se preocupa com valores estéticos. Esses belos peixes desenvolveram uma coloração distinta como estratégia de sobrevivência: a camuflagem. Suas escamas se misturam com os padrões brilhantes e fractais do recife. “Esses peixes tendem a viver em corais e têm um nível trófico mais baixo”, diz Mouquet.

Do outro lado do espectro, peixes com cores monótonas e sem padrões e formas de corpo alongadas foram considerados os menos bonitos. Estas espécies não são tão facilmente caracterizadas. Eles desempenham muitos papéis diversos na ecologia e ocupam muitos habitats diferentes.

A Ecologia da Estética

Os pesquisadores descobriram que, embora belas espécies de peixes tendiam a ter papéis ecológicos sobrepostos, muitas das espécies menos bonitas ocupavam nichos únicos. Isso sugere que eles podem ter um valor de conservação relativamente alto. Além disso, as espécies menos bonitas eram mais propensas a serem listadas como ameaçadas pelo União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Muitos deles, como anchovas ou steenbras brancas, são vítimas de pesca excessiva. “Os peixes menos bonitos precisam mais de conservação – precisamos garantir que nossos vieses estéticos não se transformem em vieses de conservação”, diz Mouquet.

Os recifes de coral estão entre os ecossistemas mais ameaçados da Terra. Sua sobrevivência contínua depende da diversidade nas espécies que os ocupam e os sustentam. Sem dúvida, a beleza da natureza é uma importante ferramenta para motivar as pessoas e os governos a participarem da conservação. Mas a estética também tem o potencial de nos cegar para o valor ecológico de uma espécie. No futuro, Mouquet espera aplicar seus métodos de pesquisa para avaliar as preferências estéticas de outros táxons animais. Um projeto futuro pode até avaliar paisagens.

“Esperamos poder minimizar coletivamente os impactos de nossos vieses de percepção por meio de uma melhor comunicação ao público, formuladores de políticas e ONGs conservacionistas”, diz ele.



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